quinta-feira, 5 de Maio de 2011

Desafios e tensões contraditórias na definição de empreendedorismo social

Definir o que é o empreendedorismo social coloca importantes desafios – será melhor concentrar em fixar as fronteiras, ou será melhor analisar a dimensão do empreendedorismo social, ou ainda adoptar uma definição mais inclusiva ou mais exclusiva dele? Estas problemáticas continuam a ser alvo de discussão importante no campo de estudo do empreendedorismo social, apresentando ambas as abordagens vantagens e desvantagens. Considerar que o empreendedorismo social continua envolvido num campo de práticas, pode ser melhor do que evitar uma estrita/limitada definição, tal como evitar excluir iniciativas que podem ter direito a ser consideradas empreendedorismo social mesmo que elas não reúnam todas as características essenciais. Uma grande variedade de definições de empreendedorismo social e de empreendedores sociais tem sido apresentada. Contudo, na opinião de alguns autores os fundamentos do empreendedorismo social ainda não foram explorados adequadamente (Cf. Austin et al, 2005; Mair e Marti, 2006; Weerawardena e Mort, 2005).

Autores como Neck, Bruah e Allen (2009) sugerem que “a falta de entendimento ou o que define o empreendedorismo social e o empreendedor social pode não ser importante”, defendendo que o que realmente importa é compreender o cenário do sector em que este tem tido o seu desenvolvimento.

Parece que um consenso sobre as fronteiras do empreendedorismo social continua por alcançar (Nicholls, 2006), mas também uma certa clareza começou a emergir nos anos recentes. Possivelmente foi alcançado um bom equilíbrio entre a necessidade de incluir alguns conceitos e práticas do campo e excluir outros. Alguns autores, recorrendo a palavras-chave também apresentam pistas claras do que não deve ser esquecido quando se refere ao empreendedorismo social: valor social, missão social, riqueza social, mudança social, impacto social, inovação social, sustentabilidade, criatividade e abordagem de negócio.

O conteúdo e as abordagens das definições variam; estas tendem a incluir múltiplas dimensões e apresentam um número de tensões contraditórias com a própria noção.
O mais importante destas tensões parece ser:

1. É o ES um fenómeno individual ou colectivo? Isto é, deve focar-se no empreendedor social individual em vez das iniciativas empreendedoras colectivas? Parece que o ES pode ser ambos, um fenómeno individual e colectivo. A realidade, dos exemplos concretos, apresenta poucos empreendedores sociais excepcionais/ fora de série e muitas iniciativas colectivas. Estas iniciativas incluem um número de empresas sociais, que são muitas vezes detidas e geridas colectivamente no modelo de cooperativa, e iniciativas realizadas pelas comunidades podem ser vistas como actores empreendedores colectivos (Peredo e McLean, 2008);

2. É o ES é formado pelo valor social em vez do valor económico? A resposta poderia ser essa, enquanto a sustentabilidade económica é necessária de forma a perseguir a missão social das iniciativas de empreendedorismo social, a criação de valor social é a característica essencial das iniciativas, para o empreendedor social, sendo o objectivo principal o de produzir mudança social. Mais concretamente, a novidade representada pelas empresas sociais e pelo empreendedorismo social é que o valor económico serve os objectivos sociais. Neste sentido, empreendedorismo social cria valor adicional que consiste nas componentes de valor económico, social e ambiental (Emerson, 2003);

3. O empreendedorismo social está somente localizado no sector não-lucrativo ou pode ser igualmente encontrado nos sectores lucrativos e públicos? Enquanto muitas das iniciativas de ES podem ser encontradas no sector não-lucrativo, algumas “atitudes” de ES também dizem respeito a outros sectores: o sector lucrativo (negócios lucrativos com alcance excepcional, níveis concretos de responsabilidade social e um alto nível de criação de valor social) e o sector público (autoridades central e local envolvendo-se ou promovendo programas e medidas socialmente inovadoras em parceria com outros sectores);

4. O ES tem como objectivo alcançar impacto social incremental ou pretende produzir somente transformações sociais radicais? Parece que se o empreendedorismo social é uma forma de melhorar a qualidade de vida dos indivíduos e das comunidades através da criação de valor social e caminhos inovadores, não é essencial estabelecer se esse impacto tem de ser incremental ou radical. Mudanças radicais são desejáveis e possíveis, mas não são fáceis de alcançar e não acontecem com regularidade. Perseguir impactos sociais e mudanças mais limitados consegue criar um círculo virtuoso de mudanças mais sistemáticas enquanto os empreendedores sociais começam a enfrentar com sucesso desafios mais importantes. O ES aspira, portanto, em perseguir tanto as mudanças sociais radical e incremental;

5. É o ES um fenómeno local ou global? Enquanto muitas iniciativas acontecem ao nível local, o seu impacto e as suas repercussões que imanam do impacto não podem ser isoladas, porque existem em última instância ligações globais. Um claro exemplo disto poderia ser o crescente aumento de projectos/empreendimentos filantrópicos (venture) disponíveis na Europa, América do Norte e Japão para apoiar iniciativas de empreendedorismo social local (Mair e Garley, 2010).

Para saber mais sobre as linhas de análise do empreendedorismo social (ES) e da inovação social (IS), bem como a exploração dos seus significados através de exemplos concretos de ambos os campos,Ver: Noya, Antonella (2010),“Social Entrepreneurship and Social Innovation” in SMEs, Entrepreneurship and Innovation; OECD.

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